Release/Histórico
Não faz muito tempo atrás, eu ia quase todo dia prum shopping da Zona Norte do Rio esperar a minha namorada sair da locadora de vídeos em que ela trabalhava. Como ela só saía às 10 da noite, eu esperava na cafeteria, pedia um expresso e ficava pensando na vida - aqueles pensamentos que você tem durante o dia inteiro, mas só quando você senta e acende seu cigarro pode organizá-los melhor, como que repassando mentalmente os conflitos e angústias do dia que passou. Quando chegava as dez, eu descia pro térreo e ia buscá-la, e voltávamos juntos pra minha casa. Éramos apenas jovens brincando de adultos, ganhando pouco, mas com alguns sonhos e a vontade de curtir a vida a dois.
Acho que é por aí que se explica o som do CAPPUCCINO - sentimentos sinceros, recortes psicológicos e a vontade de se fazer música, tudo isso expressado pelas letras bem trabalhadas e pelo arranjo simples, mas longe de ser simplório. É difícil dizer as influências - se você perguntar pra banda, eles vão mapear alguma coisa entre o rock alternativo e o emo, mas o resultado final possui personalidade o bastante para dificultar a
rotulação... e, por incrível que pareça, com uma forte melodiosidade - é só ouvir o CD algumas vezes e se surpreender cantarolando os refrões pela rua.
A banda em geral veio da escola do punk rock dos anos 90, e desde 2000 até aqui a formação mudou, e a banda amadureceu... aquela transição sutil entre o fim da adolescência e o começo da vida adulta. O Vinícius Mitchell é o óbvio frontman, e isso dá pra perceber nos shows da banda. Sua guitarra se concentra no absolutamente essencial pra música, sem exageros, e a voz angustiada dá aquele toque meio existencialista que é o diferencial do som deles. A cozinha é bastante eficiente; o Sérgio é um baixista criativo e dá aqueles detalhes no arranjo que você percebe depois de algumas ouvidas mas nunca mais deixa de notar. E o Bruno é um baterista de mão cheia, extremamente técnico mas que não se perde em exibicionismos sem motivo. O resultado final é uma sonoridade que sempre surpreende a cada vez que a gente ouve.
Esse é o CAPPUCCINO: pessoas como eu, como você, tentando passar sua visão de mundo com uma sonoridade que vêm amadurecendo e hoje já possui personalidade própria. Mas alguma coisa do "do it yourself" continua ali... talvez seja esse o tal "espírito alternativo" que faz o rock se renovar e reinventar sempre, independente de hypes e demandas do mercado fonográfico. O CAPPUCCINO, como banda independente, com certeza está fazendo sua parte.
- Pedro Moura
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